11/13/2005

As expectativas


Andei alguns dias a pensar porque é que "nunca devemos voltar aos locais onde fomos felizes". Porque é que eu não devo voltar ao local, ao momento onde fui feliz?... Não seria natural que convivêssemos bem com tudo aquilo que nos trás boas recordações? Porque é que a memória, às vezes, sabe mal?.. Estas dúvidas têm atravessado muitas tardes de Domingo, alguns minutos antes de adormecer e, ao longo do tempo, apontaram o dedo àquele que me parece ser um dos meus maiores problemas: a criação de expectativas.

Quando tentamos preparar o futuro, tudo se torna mais complicado pois pressionamo-lo a ser tão bom como o passado. Ou muito mais do que isso: nós queremos que o futuro seja melhor do que um certo passado que já mora em nós e que é muito "maior" do que talvez tenha sido na realidade. Com isto não pretendo desmistificar as memórias ou o uso que fazemos delas... a nossa verdade é, sem dúvida, algo que acontece entre a vida que vivemos e aquela que imaginamos e recordamos - só aí somos, existimos. Mas... que Diabo! Eu gostava de ser livre, de ter memórias intensas mas leves, que me permitissem olhar para trás com ternura e com vontade de repetir sem expectativas. Sonhar sem sentir o peso do sonho. A factura das ilusões.

Viver à sombra das expectativas é terrível, porque elas chegam sempre antes de nós, em qualquer viagem, a qualquer destino desejado. E geralmente impedem-nos de usufruir da vida e de criar boas recordações, quem sabe melhores do que aquelas que já temos. Só que, por outro lado, há situações em que as expectativas se revelam demasiado pequenas. É quando o nosso sonho se desfaz, mostrando ser muito menor do que a surpresa que nos espera. Sabemos que isto acontece quando os sentidos assumem uma ruptura com os pensamentos preparados e se tornam livres, soltos, à procura de um novo rumo.

Tive essa sensação no fim de semana passado. Há três dias, estive num jantar da Turma 8ºE, da Escola Secundária Clara de Resende. Revi amigos que não via há 12 anos. Recordei, senti, temi aqueles segundos em que um rosto é arrastado da memória para o presente, e se assume, inequivocamente, familiar. Mais do que o reencontro com os outros, é o reencontro da vida com a vida. É o saltar de um comboio em andamento e voltar a ao chão de terra, e parar, deixando a vida seguir o seu curso. Que importa quantas carruagens nos fujam da vista se aquela vida, a primeira, volta a passar à nossa frente?

Quando eu pensava que havia naquele jantar algo de Ano Novo - faz-se a contagem decrescente, algo acontece e depois tudo passa - percebi que estava enganada. A cada segundo, cada descoberta se tornava mais deliciosa. Era como despir do rosto de cada um os anos passados e voltar a ter como rotineiros aqueles sorrisos, aquelas piadas que continuam as mesmas, apesar de ditas com vozes mais grossas ou com olhares mais maduros. É muito bom regressar. É muito bom sentir que o que aconteceu, aconteceu mesmo. Aquelas pessoas foram as minhas testemunhas. Elas confirmam que eu vivi. O que vivi. Como vivi.

Voltei a Lisboa e percebi que trouxe mais comigo do que aquilo que levei. Cruzei-me com a minha história nas histórias de cada um. E percebi que o melhor antídoto para as expectativas é a certeza de que o nosso passado valeu mesmo a pena. É a garantia de que o futuro também pode valer.

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe." Oscar Wilde

11/12/2005

As surpresas que eu não quero ter


Tal como seria de esperar, Portugal faz parte da lista de países que as células terroristas têm como alvo. No comunicado da organização da Jihad na Europa, podia-se ler: "vocês, líderes da Itália, Dinamarca, Ucrânia, Portugal, Holanda, Polónia e todos os aliados dos assassinos americanos, os vossos exércitos não vos protegerão nem os vossos túneis ou agentes".
Apesar de hoje esta informação ter sido dada como novidade - justificada pela existência explícita do nome do nosso país na lista de alvos - não acredito que tenha surpreendido alguém. Desde que Portugal apoiou os Estados Unidos na Guerra contra o Iraque, é natural que tenha ficado exposto a este tipo de ameças, tal como o Reino Unido ou Espanha. Aliás, desde o encontro a quatro nos Açores, os portugueses começaram a torcer os dedos na esperança de que Durão Barroso fosse confundido na fotografia com um qualquer emplastro.
Mas, pelos vistos, não foi. Apesar de já ter deixado o Governo, o apoio dado pelo ex-primeiro ministro não foi esquecido e coloca-nos na mira dos terroristas enraivecidos.
Assim sendo, o que se pode fazer? Em declarações ao Expresso, Leonel Carvalho, do Gabinete Coordenador de Segurança revelou que tem havido "uma intensificação na troca de informações" com os polícias e serviços secretos europeus. E eu pergunto: Só agora? Só desde Julho, a data deste comunicado? Porquê? Até agora não existia perigo iminente?...Até agora não era preciso conhecer as nossas ameaças ao detalhe?...
Os portugueses habituaram-se a aceitar que já não incomodam ninguém há muito tempo, praticamente desde os Descobrimentos. Só que agora - por motivos com os quais discordo - voltámos a ser reconhecidos como inimigos, como apoiantes de ocupações de território. E temos que arcar com as consequências. Não podemos continuar a assobiar para o lado, pensando que estamos aqui, neste "cantinho" da Europa, onde nada acontece, até confortáveis com a ideia de que, de certeza, os terroristas se lembrarão de atacar outros, antes de chegarem a nós. Infelizmente, desta vez, nós chegámo-nos à frente, pelos piores motivos.

De repente, numa noite de Agosto.



Porque esta foi a música que nos ajudou a criar uma noite inesperada.
Porque esta letra é muito a nossa verdade.

Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

Quase que não chegava
A tempo de me deliciar
Quase que não chegava
A horas de te abraçar

Quase que não recebia
A prenda prometida
Quase que não devia
Existir tal companhia

Não me lembras o céu
Nem nada que se pareça
Não me lembras a lua
Nem nada que se escureça

Se um dia me sinto nua
Tomara que a terra estremeça
Que a minha boca na tua
Eu confesso não sai da cabeça

Se um beijo é quase perfeito
Perdidos num rio sem leito
Que dirá se o tempo nos der
O tempo a que temos direito

Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito

"Quase Perfeito", Donna Maria

11/11/2005

Saber esperar


Toda a minha vida quis saber mais, sentir mais, viver mais.
Muitas vezes, esta "sede" impediu-me de saborear - com a calma e o requinte necessários - aquelas fracções de segundo que antecedem tudo e a que chamamos presente.
Muitas vezes, esta vontade de futuro fez-me ser precipitada, impulsiva, ansiosa e, no final do dia, vazia. O meu presente estava espartilhado entre um passado já conhecido e um futuro desejado.
Ao longo destes 26 anos, fui percebendo que, para receber o futuro, temos de saber recuar. Temos de saber parar, olhar e escutar, como quem atravessa a estrada. Porque é disso que a vida se trata: todos os dias há travessias, passagens, em que o sonho nos empurra para o lado de lá. Mas se os nossos sentidos - todos eles, mesmo os que pertencem à alma - não estiverem atentos, podemos estar simplesmente a andar aos círculos ou a carregar, sem destino certo, expectativas infundadas.
Com tudo isto não quero dizer que a minha "sede" tenha desaparecido. Continuo a querer saber mais, sentir mais, amar mais. Nem sequer quero perder toda a minha ansiedade, pois é ela que me dá luz - o brilho nos olhos é feito disso mesmo...
Mas quero beber a vida de uma outra forma: quero ter prazer na espera, quero que a escolha do caminho seja, por si só, a concretização de um desejo. Quero desejos lentos misturados com beijos descontrolados. Quero novidades, viagens, conversas, descobertas. Quero um mundo de novidades, de notícias, críticas e opiniões, mas quero-lhes dar o tempo que merecem em mim.
E quero um amor que faça comigo "o que a Primavera faz com as cerejas", como dizia Neruda.
Aqui espero registar todas as passagens, todos os sobressaltos, todas a alegrias, desilusões e ironias. O Inesperado.

"Porque é que este sonho absurdo a que chamam realidade não me obedece como os outros que trago na cabeça? Eis a grande raiva! Misturem-na com rosas e chamem-lhe vida. " José Gomes Ferreira