As expectativas

Andei alguns dias a pensar porque é que "nunca devemos voltar aos locais onde fomos felizes". Porque é que eu não devo voltar ao local, ao momento onde fui feliz?... Não seria natural que convivêssemos bem com tudo aquilo que nos trás boas recordações? Porque é que a memória, às vezes, sabe mal?.. Estas dúvidas têm atravessado muitas tardes de Domingo, alguns minutos antes de adormecer e, ao longo do tempo, apontaram o dedo àquele que me parece ser um dos meus maiores problemas: a criação de expectativas.
Quando tentamos preparar o futuro, tudo se torna mais complicado pois pressionamo-lo a ser tão bom como o passado. Ou muito mais do que isso: nós queremos que o futuro seja melhor do que um certo passado que já mora em nós e que é muito "maior" do que talvez tenha sido na realidade. Com isto não pretendo desmistificar as memórias ou o uso que fazemos delas... a nossa verdade é, sem dúvida, algo que acontece entre a vida que vivemos e aquela que imaginamos e recordamos - só aí somos, existimos. Mas... que Diabo! Eu gostava de ser livre, de ter memórias intensas mas leves, que me permitissem olhar para trás com ternura e com vontade de repetir sem expectativas. Sonhar sem sentir o peso do sonho. A factura das ilusões.
Viver à sombra das expectativas é terrível, porque elas chegam sempre antes de nós, em qualquer viagem, a qualquer destino desejado. E geralmente impedem-nos de usufruir da vida e de criar boas recordações, quem sabe melhores do que aquelas que já temos. Só que, por outro lado, há situações em que as expectativas se revelam demasiado pequenas. É quando o nosso sonho se desfaz, mostrando ser muito menor do que a surpresa que nos espera. Sabemos que isto acontece quando os sentidos assumem uma ruptura com os pensamentos preparados e se tornam livres, soltos, à procura de um novo rumo.
Tive essa sensação no fim de semana passado. Há três dias, estive num jantar da Turma 8ºE, da Escola Secundária Clara de Resende. Revi amigos que não via há 12 anos. Recordei, senti, temi aqueles segundos em que um rosto é arrastado da memória para o presente, e se assume, inequivocamente, familiar. Mais do que o reencontro com os outros, é o reencontro da vida com a vida. É o saltar de um comboio em andamento e voltar a ao chão de terra, e parar, deixando a vida seguir o seu curso. Que importa quantas carruagens nos fujam da vista se aquela vida, a primeira, volta a passar à nossa frente?
Quando eu pensava que havia naquele jantar algo de Ano Novo - faz-se a contagem decrescente, algo acontece e depois tudo passa - percebi que estava enganada. A cada segundo, cada descoberta se tornava mais deliciosa. Era como despir do rosto de cada um os anos passados e voltar a ter como rotineiros aqueles sorrisos, aquelas piadas que continuam as mesmas, apesar de ditas com vozes mais grossas ou com olhares mais maduros. É muito bom regressar. É muito bom sentir que o que aconteceu, aconteceu mesmo. Aquelas pessoas foram as minhas testemunhas. Elas confirmam que eu vivi. O que vivi. Como vivi.
Voltei a Lisboa e percebi que trouxe mais comigo do que aquilo que levei. Cruzei-me com a minha história nas histórias de cada um. E percebi que o melhor antídoto para as expectativas é a certeza de que o nosso passado valeu mesmo a pena. É a garantia de que o futuro também pode valer.
"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe." Oscar Wilde



